QUANDO A OPINIÃO NÃO É ‘APENAS’ UMA OPINIÃO
Junho 11, 2018 Sem comentários Artigo de Opinião António Lopes

É normal nos nossos diálogos com outras pessoas emitirmos a nossa opinião sobre determinado assunto.

 

Umas vezes de forma bastante incisiva – mais para o lado da certeza do que da opinião – outras vezes, de uma forma casual e despreocupada.

 

Tão casual que nos surpreendemos com as reacções negativas à nossa opinião.
Como se estivéssemos a impor alguma coisa.

 

A questão pertinente:
E será que não estávamos mesmo a impor?

 

Será que a forma de nos expressarmos pode ser legitimamente entendida por algo mais do que uma opinião pessoal que, supostamente, apenas estaria a revelar um gosto ou opção?

 

1. Existe algo mais além de opiniões?

Há quem defenda que o ser humano nada mais pode fazer do que opinar.

 

A diferença estará então nas situações em que a pessoa opina com a consciência de o fazer e naquelas em que a pessoa opina mas julga que fala de factos / certezas e não de opiniões.

 

 

2. Mesmo sem chegarmos a esse ponto, se acreditarmos que as certezas são uma coisa muito incerta;
Se sabemos o quanto é fácil haver mal entendidos;

 

Convém então prevenir – na medida do possível – que aconteçam.
(sim, é impossível que não hajam…)

 

 

3. Um dos problemas das opiniões é quando as expressamos de forma a que pareça que a nossa (ou o assunto / objecto opinado) é melhor que os outros, quando até nem era essa a nossa intenção.

Mas como a linguagem é traiçoeira…

 

 

4. Exemplo prático (1).
a) “Essa roupa fica-te bem.”
b) “Gosto de te ver com essa roupa.”

 

Julgo que a maioria das pessoas não faz diferença entre as duas frases e que consideraria que ambas constituem meramente uma expressão do nosso gosto pessoal.

 

Penso que isso é claro na frase b).

 

E na frase a), não?

Creio que não será assim tão simples.
Na frase a) o emissor estabelece o seu gosto pessoal como um paradigma.

 

“Ficar bem” é uma espécie de “sentença” do nosso gosto enquanto padrão de qualidade a seguir.

 

“Ficar bem” estabelece-nos enquanto fazedores de opinião.

 

 

5. Exemplo prático (2)
c) Na minha opinião, a melhor forma de alimentação é a X.
d) Gosto da alimentação X. Sinto-me bem com ela e etc…

 

d) é mais uma vez uma clara manifestação de um gosto pessoal.
E c), como classificar?

 

Uma opinião, um “para mim”, um “penso que”, não são necessariamente inócuos.

 

A nossa opinião, mesmo que digamos respeitar as opções alheias, pode ser bastante redutora e até mesmo agressiva.

 

Para quem nos ouve / lê, que talvez aconteça ter um historial de problemas em ser agredid@ verbalmente pelas suas opções, pode não ser fácil distinguir entre quem se explica mal e quem “ataca”; por vezes disfarçadamente.

 

De que forma isto se pode processar?
Ora bem, através da hierarquização de valores

 

Quando uma pessoa diz (que para ela), a melhor alimentação é a X está a dizer que todas as outras Y e Z são piores.

 

Estabelece assim uma hierarquia de valor em que X está acima de Y e Z.

É bom de ver que quem segue Y ou Z não gostará de ver os seus valores / opções serem menosprezados.

E, justamente, verá aí um ataque aos mesmos.

 

./.

 

Quando nós estabelecemos os nossos valores acima dos demais convém ter consciência de que o fazemos, que estamos a antagonizar outras pessoas e que estas podem responder de forma que nos desagrade.

 

Não queremos ir por aí?

 

Porque não dizer simplesmente:

Eu gosto / prefiro isto. Funciona para mim.

 

É fácil, é barato.
Não dá milhões, mas evita algumas confusões.



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