LEITE VEGETAL OU BEBIDA VEGETAL?
Junho 8, 2019 Comentários fechados em LEITE VEGETAL OU BEBIDA VEGETAL? Artigo de Opinião António Lopes

São normais, volta e meia, as discussões sobre a designação de leite/bebida (vegetal), com os habituais argumentos jocosos sobre ordenhar amêndoas e etc.
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O argumento dos detractores da utilização da palavra ‘leite’ aplicada a bebidas vegetais é basicamente o mesmo – vegetais não dão leite.

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Ninguém – obviamente – contesta a ausência de glândulas mamárias em espécies vegetais, mas o significado da palavra leite e o seu uso vão muito mais além da tal famosa e milenar bebida e são bem anteriores a esta “polémica”.

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A questão do leite/bebida (vegetal) tornou-se acesa com a ameaça à cota de mercado dos produtores de leite.

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Um dos motivos apresentados (além do já referido) prendia-se com a confusão e engano que se podia gerar entre os consumidores ao serem presenteados com tantas variedades novas de leites ou queijos com o atractivo místico da palavra ‘leite’ a constituir uma desvantagem competitiva das bebidas vegetais que atraíria o consumidor para um leitinho de arroz em detrimento do da vaquinha.

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Imaginamos também o Zé – bem enganado e confuso – a ir comprar leite de soja ou de amêndoa pensando que estava na realidade a comprar leite de novas raças de vacas leiteiras que os criadores, sempre dispostos a variar na oferta ao consumidor, teriam desenvolvido.

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Assim, além das vacas holandesas, jersey, pardo suiço ou até para os mais exigentes e elitistas, uma Guzerá – os Zés deste mundo,  apreciadores de leite, tinham agora as vacas amêndoas, soja (estas até fazem sentido), arroz…

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E, claro, aquele queijo de caju atrozmente caro era produzido a partir dessa vaca famosíssima.

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Mas eis que vêm os produtores de leite de vaca, os governos, os fanáticos da parca imaginação leiteira e desuso da leitura de dicionários – todos preocupadíssimos com a boa informação facultada ao consumidor – baterem-se pela reposição da verdade láctea.

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Ficámos todos gratos por sermos protegidos e elucidados e a bebida de amêndoa que hoje compramos no hiper é garantidamente de origem vegetal, ao contrário do leite de amêndoa que era sabe-se lá o quê.

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E, naturalmente, os produtores de leite viram a sua cota de mercado aumentar comparativamente à das bebidas vegetais (que era essa a preocupação)…
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Ou não viram?

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Abaixo ficam alguns dos significados e utilizações da palavra ‘leite’ que eram comuns antes destas minudências.

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Talvez os intransigentes dos lacticínios proponham a proibição e a substituição por palavras mais adequadas.

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E talvez chatearem o Camões por causa das metáforas “lacticínicas”?

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LEITE em dois dicionários separados por um século:

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“leite”, no Novo Diccionário da Língua Portuguesa, Candido de Figueiredo – 1913
Líquido opaco, branco e de sabor adocicado, produzido pelas glândulas mammárias da mulher e das fêmeas dos animaes mammíferos.

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* Leite de gallinha, planta liliácea. árvore de leite, árvore urticácea da América.

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* Leite de cal, cal, preparada para caiação de branco.

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Bras. Leite de côco, sumo da amêndoa de côco, preparado como adubo culinário.

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* Irmão de leite, irmão collaçoo. (Do lat. lac, lactis)

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“leite”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha],

2008-2013, https://dicionario.priberam.org/leite.

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(latim lac, lactis, leite)
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substantivo masculino
* Líquido segregado pelas tetas das fêmeas dos mamíferos (ex.: leite de cabra, leite de vaca).
* [Botânica]  Suco lácteo de certas plantas.
* Líquido esbranquiçado ou semelhante ao leite (ex.: leite de soja).
* [Calão]  Esperma.
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(…)

leite de limpeza
Produto cosmético que se utiliza para remover a maquilhagem. = DESMAQUILHANTE

(…)

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No Priberam encontramos ainda: leite-de-galinha, leite-de-magnésia, leite-de-cal, leite-de-onça.

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Além dos significados acima referidos, há ainda, por exemplo  o uso como apelido e “cheirar a leite”.

 



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